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O QUE DIRÁS ENTÃO DA PROFANAÇÃO DOS OLHARES

 

Regressas à lentidão pela nostalgia das parábolas incólumes, uma respiração imensa entre o tráfego de um monólogo incessante e a vertigem das imagens.
Uma língua de fogo semelhante à espessura do silêncio, um inventário de ambiguidades no assombro da loucura, um pressentimento rumo à paisagem insuspeita explodindo.
Um pouco de água às vezes sacia a fome, as lágrimas que diminuem os lugares acolhem a velocíssima poeira do mundo, vestígio dum destino inviolável onde é frágil o júbilo da tristeza.
A lentidão repousa em oferenda envolvendo os meridianos da paciência, a caligrafia infinda de um fragmento de coração em tumulto exacto se alguém convoca abundante todos os meandros do olhar.
Por certo nem os passos redimes na noite obscura, nem selas as cartas ou amassas o pão, meditas imprecando uma saída, um sonho hostil, denso de presságios e nenúfares.
Há uma explicação fundente para alcançar a luminosidade das estrelas, o que devora o tempo o deserto abrasa de escuras raízes, os parcos haveres da dúvida como hóspede da lucidez – dizes.
É como arrebatar da beleza desenfreada, as predações da natureza, revelar o que escondido desaparece, o abismo intolerante onde se afunda a garganta como navalha.
Será sagrado então tudo e espesso na sua obscuridade o mundo ascende enxuto das águas nos seus domínios e calabouços e na demanda dessa embriaguez fixarás o sol e a lua como princípio ou livro.
E a sombra exacta cumpre a sua luminosidade inesperada, o tenso tremor de um canto, uma passagem de crepúsculos, o fermento amoroso que dilata no vazio das nuvens o desprendimento de deus.
A solidão serve de bússola na cosmografia imprecisa, como álcool devassando os lábios de segredos, cláusulas que consomem inclementes o ar pela acelerada armadilha de não morrer.
E caminhas sem limite declinando o divino sob os pés, e no seu cansaço saberás onde parar acolhendo disso uma alegria, um tapete de flores imperfeitas, um umbral onde dormitar incansável.
Uma fissura alimenta as trevas se adivinhamos da alma o arpão que na sua azáfama damos morada, abandono padecido, repúdio e préstimo como alívio miserável.
Partículas de labaredas em turbilhão, películas em fragmentos, voláteis veredas elevando halos de anjos, o peso da terra quente sobre os olhos, tudo cingindo os pulsos em seu pigmento – dirás.
E a loucura ascende de repousos em combustão levedando o ar das cisternas, desfazendo os nódulos da luz e coroando as artérias de contracções e texturas jorrantes.
Aí buscarás veneração e lamento, premeditado perdão e fragmentas a carne em ferida por séculos e morada pelo temor de uma sevícia no desassossego imenso.
O que dirás então da profanação dos olhares, dos pastores que ligam os campos em usura, do orvalho do incenso transbordante, da aura amarga ou da morfologia do desgosto, de um osso aglomerado de moscas e calcanhares gretados de miséria, do espesso tardar da salvação, da algidez que preserva os mortos na sua embebida quietude, da velocidade inabitável com que dissipas as mutações da luz, o que vês se não há outra passagem no batimento das asas, na constelação de gravetos que estalam sob os pés, da claridade da incerteza, da matéria dos instantes em que o movimento é fértil e perdura, da iminência antiquíssima da precária intimidade do espírito, para quê aconchegar o tempo no seu manto de urze e chuva, e na descrença alagar o fogo de olivais, para quê conduzir o vento entre paredes até à eternidade inexorável, e na penumbra encostar o corpo para sulcar o vazio como um fósforo sulca as trevas, o que pedirás esquecido de perguntas e enganos, em que mapas calcinarás os desejos, a ventilação dos mortos, os andaimes que impelem o sangue brutamente em danação sobre a inocência de tudo – ou os alicerces da morte sobre a inocência do sangue?

Jorge Velhote
(Junho 2014)

 

Ao, Jorge Velhote
O meu agradecimento pela disponibilidade e interesse na elaboração deste texto.
Um grande abraço,
alopes

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